domingo, 14 de março de 2010

Sobre Palavras

Desde sua infância, Érico demonstrou gosto pelas palavras. Ao escrever ou falar, colhia, peneirava e degustava as palavras certas. Um texto seu sempre foi um grupo seleto de sílabas, pontos e interjeições.
Apenas aquela palavra que coubesse, encaixada, lado de outra e mais outra. Desconheço a palavra inicial de Érico, mas daí veio a quase infinita sucessão de tal colheita.
Conforme cresceu, é verdade que o rapaz tomou outros hábitos, mas estes eram pura veleidade: essencial era mesmo a escrita.
Escrevendo um de seus contos, certo dia, por esses acasos que ninguém sabe explicar, Érico deu conta de que faltaria papel para suas palavras. Desesperou-se. Palavras como aquelas não poderiam, de forma alguma, cair no esquecimento! As linhas vazias se esvaíam, até que foram preenchidas.
Érico não hesitou. Estufou-se e continuou os escritos na parede de seu quarto. Evidentemente, uma parede não bastaria. Tomou todos os cômodos de sua casa. Abriu, numa fúria imensurável, cada enciclopédia de sua estante e ignorou as palavras já escritas nas folhas. Sobre essas palavras, arranjou palavras suas. Aquelas, sim, eram dignas o bastante para ocuparem espaço em sua casa.
Tomadas todas as páginas, escreveu nos móveis, no chão e nas janelas, e então percebeu que estava rodeado pelo fruto de seu parto. Um acesso de claustrofobia pressionou-lhe o peito, mas continuava, absorto, a escrever.
Num bruto suspiro, tocou as costas quentes no chão frio e escreveu sobre suas pernas, músculo por músculo, subindo até sua face. Regozijou-se com a sensação de sufocamento; numa cólera rasgadamente literária, bramiu com todas as suas forças a derradeira palavra.
O que veio foi uma total surdez doentia. Emudeceu-se e assim permaneceu até sua morte. Em sua lápide, há um vazio que todos entendem mas não explicam. Ora; todas as boas palavras já haviam sido ditas e a nós, os meros falantes, restaram as levianas.

Um comentário:

Anônimo disse...

A neguxa eh foda =P

Sensibilidade à flor da pele.