A falsa serenidade e o leve sorriso bordados no rosto da cantora, já no caixão, é tão inquietante quanto o suspiro de sua mãe, que quase não percebe a câmera a filmá-la.
Balança a cabeça e abaixa seus olhos, sentindo sua dor materna, que mesmo dividida por um país inteiro, poderia preencher o vazio de seu coração.
A favela acordara Carolina cedo, aquela manhã. O barulho na janela significava sinal de perigo, coisa que ela não entenderia muito bem até atingir a idade de sua irmã (embora não soubesse bem ao certo a idade de sua irmã, já que há alguns anos ela sumira sem deixar vestígios). Chamou seu pai e não obtendo respostas, Carolina, com sua curiosidade de uma criança de oito anos, saíra para ver o que de fato acontecia e talvez entender o motivo para tanta gritaria e agitação.
Abriu a porta de seu barraco e pisou na terra batida ainda molhada pela chuva do dia anterior. O que sentiu a seguir foi um baque. Um som seco. Abaixou seus olhinhos e mirou em seu peito um espirro vermelho de sangue, que tingia seu pijaminha amassado.
Se ela tivesse a idade de sua irmã, saberia que não era uma boa hora para sair de casa. Tempos de disputa no morro nunca parecem ser uma boa hora para sair de casa.
Sua mãe subira correndo os degraus que a levaram à sua porta; deixando os pães no chão molhado da chuva do dia anterior, abaixou a cabeça e rezou. Rezou em um silêncio tão doente quanto no dia em que rezara para sua outra filha, que Carolina saberia a idade, se não tivesse sumido sem deixar vestígios há um tempo.
O corpinho de Carolina foi sepultado ali perto, sem muito alvoroço. Nas intenções da capela, havia um papel, nomeado à "Finada Carolina" que se confundia no meio de tantas outras Carolinas, por ninguém saber Carolina do quê.