quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O outro lado da manchete

Havia um vazio nos corações do Brasil, naquela tarde de janeiro. Por detrás do silêncio doentio que assolava a cidade, era quase possível ouvir ecoar o som de todos os televisores anunciando a morte dela. O perturbador é que Elis não deixara carta; antes deixasse alguma canção, escrita às pressas. Tudo que se encontrava atrás da porta do seu quarto eram vestígios de sua derradeira dose (dose esta que mataria um pouco cada brasileiro).
A falsa serenidade e o leve sorriso bordados no rosto da cantora, já no caixão, é tão inquietante quanto o suspiro de sua mãe, que quase não percebe a câmera a filmá-la.
Balança a cabeça e abaixa seus olhos, sentindo sua dor materna, que mesmo dividida por um país inteiro, poderia preencher o vazio de seu coração.





A favela acordara Carolina cedo, aquela manhã. O barulho na janela significava sinal de perigo, coisa que ela não entenderia muito bem até atingir a idade de sua irmã (embora não soubesse bem ao certo a idade de sua irmã, já que há alguns anos ela sumira sem deixar vestígios). Chamou seu pai e não obtendo respostas, Carolina, com sua curiosidade de uma criança de oito anos, saíra para ver o que de fato acontecia e talvez entender o motivo para tanta gritaria e agitação.
Abriu a porta de seu barraco e pisou na terra batida ainda molhada pela chuva do dia anterior. O que sentiu a seguir foi um baque. Um som seco. Abaixou seus olhinhos e mirou em seu peito um espirro vermelho de sangue, que tingia seu pijaminha amassado.
Se ela tivesse a idade de sua irmã, saberia que não era uma boa hora para sair de casa. Tempos de disputa no morro nunca parecem ser uma boa hora para sair de casa.
Sua mãe subira correndo os degraus que a levaram à sua porta; deixando os pães no chão molhado da chuva do dia anterior, abaixou a cabeça e rezou. Rezou em um silêncio tão doente quanto no dia em que rezara para sua outra filha, que Carolina saberia a idade, se não tivesse sumido sem deixar vestígios há um tempo.
O corpinho de Carolina foi sepultado ali perto, sem muito alvoroço. Nas intenções da capela, havia um papel, nomeado à "Finada Carolina" que se confundia no meio de tantas outras Carolinas, por ninguém saber Carolina do quê.


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Caras (ou não),


Já peço desculpas, de antemão, se ofender alguma das caríssimas mulheres. Caso não as ofenda, também peço desculpas por não ser clara a ponto de fazê-lo. Pois bem:

A melhor de vocês todas não deve custar muito mais que um batom em promoção, e eu digo o porquê;

Vocês odeiam usar aquele sapato verde cor (e aparência) de musgo.
Vocês se vestem como bolos de casamento e lhes digo que é à toa, pois continuam sendo as mesmas frustradas por debaixo de toda essa seda... E todo mundo sabe disso.

Rebocar a cara com corretivo NÃO é legal. É isso que vocês fazem: retocam a maquiagem para sempre torcerem o nariz para o que vêem no espelho.

Para preencher esse vazio, penso que serão necessários mais sapatos do que o "bolsa-esposa" pode lhes fornecer.


Cuidado, os rótulos vocês já têm! Se as puserem em prateleiras pode ser um sinal de que vocês já viraram produtos! E não estou falando de Guerlain, não. Tudo indica que vocês são produtos nacionais.

Temo indicar, mas logo, logo, com a queima de estoque, estarão a preço de banana!

sábado, 23 de maio de 2009

O cubículo da Cela


Aqui nesta cela não se vê delinquente,
Nem ladrão deselegante,
Assassino adolescente
Nem habilidosos meliantes

Na cela, a moça suspira segura
Ao rapaz, a cela é como um apoio
Pra mim ela está mais pra fechadura,
Pra mim, é muita sede pra pouco arroio

Aqui só tem gente
Que é gente bem de vida,
Medo tem esta gente do mundo,
Do mundo imenso
Daquela gente lá de fora.

Gente bem de vida
Gente sempre com medo,
Contarei do nosso receio
-Mas isso é nosso segredo-
Temos medo mesmo
É do mundo imenso
Daquela gente lá de fora.

Esta alma do cubo presa,
Que por uma veleidade
Resolvei mandar lembranças,
Pediu de volta a liberdade
De quando ainda era criança.

E Grita-me, com urgência,
Uma verdade irritante,
Tenha a decência
E brada-me a seguinte verdade
Crua, nua, inquietante:

Amar selada é errado
Amar atada não vá
Alma, procura uma saída
Que procure disfarçar
Alma, procura uma cela
Que possa lhe resguardar