terça-feira, 30 de março de 2010

Ao Eleitor Antário




Vida de Antário é uma vida breve.
Vida de Antário se vive em vão.
Antário não voa; Antário não é leve.
Antário engole seco o seu pão.

Mas vai, Antário!
Abre esse olho.
Olho de Antário
Que nada vê
Não vê razão.
Não vê graça e nem tem paixão!

E o ouvido?! Antário, eu duvido
Que tenha um bom ouvido!
Antário tem ouvido de bicho
que só ouve o som do bucho.

Porque bicho que é assim:
Não vê razão e se contenta
com seu seco e ralo capim.

Não vê que o padeiro
Tá zombando de você?
Coisa alguma você vê!

E é culpa desse olho gordo
Que é tão inchado de miolo
Deste maldito pão com mofo.

Vai-te, Antário
Come desse pão teu
O padeiro te riu,
Antário,
E você nem percebeu!

Ora. Ora que
Deus é pai, Antário.
Glória a Deus,
ao padeiro
E ao seu salário.




domingo, 14 de março de 2010

Sobre Palavras

Desde sua infância, Érico demonstrou gosto pelas palavras. Ao escrever ou falar, colhia, peneirava e degustava as palavras certas. Um texto seu sempre foi um grupo seleto de sílabas, pontos e interjeições.
Apenas aquela palavra que coubesse, encaixada, lado de outra e mais outra. Desconheço a palavra inicial de Érico, mas daí veio a quase infinita sucessão de tal colheita.
Conforme cresceu, é verdade que o rapaz tomou outros hábitos, mas estes eram pura veleidade: essencial era mesmo a escrita.
Escrevendo um de seus contos, certo dia, por esses acasos que ninguém sabe explicar, Érico deu conta de que faltaria papel para suas palavras. Desesperou-se. Palavras como aquelas não poderiam, de forma alguma, cair no esquecimento! As linhas vazias se esvaíam, até que foram preenchidas.
Érico não hesitou. Estufou-se e continuou os escritos na parede de seu quarto. Evidentemente, uma parede não bastaria. Tomou todos os cômodos de sua casa. Abriu, numa fúria imensurável, cada enciclopédia de sua estante e ignorou as palavras já escritas nas folhas. Sobre essas palavras, arranjou palavras suas. Aquelas, sim, eram dignas o bastante para ocuparem espaço em sua casa.
Tomadas todas as páginas, escreveu nos móveis, no chão e nas janelas, e então percebeu que estava rodeado pelo fruto de seu parto. Um acesso de claustrofobia pressionou-lhe o peito, mas continuava, absorto, a escrever.
Num bruto suspiro, tocou as costas quentes no chão frio e escreveu sobre suas pernas, músculo por músculo, subindo até sua face. Regozijou-se com a sensação de sufocamento; numa cólera rasgadamente literária, bramiu com todas as suas forças a derradeira palavra.
O que veio foi uma total surdez doentia. Emudeceu-se e assim permaneceu até sua morte. Em sua lápide, há um vazio que todos entendem mas não explicam. Ora; todas as boas palavras já haviam sido ditas e a nós, os meros falantes, restaram as levianas.