Depois de alguns anos, novamente os pares de olhos se cruzariam e esse encontro resultaria em um abraço, no meio de esbarrões, típicos de paulistanos à francesa. Desconcertado, o casal desfaria o ninho de braços em poucos segundos, ambos pensariam na formalidade daquele encontro, ainda que este fosse casual.
Ela olharia seus braços; ainda seguiriam aquela conhecida linha e ainda estariam do mesmo modo como havia deixado. Provavelmente seriam de mesmo encaixe em seu pescoço.
Ele olharia para seu pescoço; ainda teria o mesmo encaixe de seus braços e provavelmente o mesmo cheiro natural dela, aquele que reconheceria a distância.
E nesse sonho, não quereriam dizer mais nada (qualquer palavra significaria qualquer outra coisa, e isso atrapalharia ligação desses anestesiados pela ocasião) e portanto seguiriam em silêncio por algumas quadras, até que ele, ousado como sempre foi, pousaria a mão no ombro dela e ela, com um quê de tímida, como sempre foi, levaria primeiramente de forma lenta como segura a si, a cintura do rapaz, tal como lhes era costumeiro, há tempos.
Esta reciprocidade os faria sorrir, sem sombra de dúvidas.
Já não haveria mais tempo, pois nenhum dos dois apresentaria mudanças, e por isso tratariam de apenas seguir, sem dar importância àquilo que passou na ausência daquele abraço.
À sua porta, ele sorriria novamente. Aquela boca tão conhecida lhe arrebataria um beijo que a faria ter estampado na face um sorriso bobo, típico do primeiro mês de namoro do casal. Eles se conheceriam novamente; confiariam pouco no futuro, menos ainda no que haveria passado.
Mas enquanto o reencontro não acontecia, a realidade limitava-se a uma porta entreaberta, do modo de como ele a deixou.
Mas enquanto o reencontro não acontecia, a realidade era a porta entreaberta, do modo que ela permitiu que fosse.
Eis o mal da história, igualmente fatal a outro qualquer empecilho:
Eles serão desajeitados no amor e por isso nunca saberão da mutualidade daquele devaneio tão belo e tão particular. Talvez o rapaz nunca saiba que sua moça esbarra nos paulistanos à francesa propositalmente, para encontrá-lo; talvez ela nunca saiba que seu moço anda um quarteirão a mais, antes de ir para o escritório, apenas para de relance ver se a porta continua entreaberta ou se já foi fechada.
Um típico amor de casal que foi severamente separado pela beleza irônica do desencontro.
"Muito tempo depois, porém, por um desses acasos que só o destino sabe explicar, os dois antigos namorados se encontravam nas areias de Copacabana, que é a praia onde todos vão. Já não eram os mesmos. Ele parecia carregar os milhões matrimoniais na respeitável barriga. Ela continuava encantadora, mas apenas na medida que possa encantar uma mulher de cinqüenta anos. Conversaram pouco, o silêncio disse mais. E voltaram a se encontrar, com mais freqüência e menos acaso. Já eram, no entanto, velhos demais para as inflamadas e inúteis discussões dos dezessete anos. Caminhavam calmamente pela areia molhada, mão na mão, por mais ridículo que possa parecer para a sua idade. Caminhavam sem rumo, sem tempo, sem horizonte. E quando se voltavam, sentiam a nostalgia da vida perdida em poucos minutos. "