domingo, 21 de outubro de 2007

Sexta-feira

Aquela era apenas mais uma sexta-feira, e eu estava indo para casa, sentada no ônibus, exausta...
Sentia que tudo ao meu redor tinha um ar cansado - menos aquelas crianças... Aquelas que às tantas de uma sexta-feira estão, de uma maneira desconfortável, com forças para correr, até mesmo dentro do ônibus. Talvez nem saibam que "amanhã" é sábado, talvez nem saibam que sexta-feira é o dia em que o ser humano menos produz, ou o faz com uma tremenda força.
A vontade de chegar ao meu destino era grande, entretanto, a idéia de ter de cozinhar, voltar para a minha vida normal, fazia com que a cada lombada, eu afundasse mais e mais naquele banco azul e amarelo... Quando fecho o livro que teimei em abrir há cerca de 10 minutos, deparo-me com um inseto verde, mal sabia eu que este seria meu meio de distração por mais alguns minutos, cumprindo a tarefa que seria do livro... Eu não saberia dizer quanto tempo, ao certo, demorou que acabasse a graça assistir ao inseto andar e cair naquela janela, mas posso acrescentar que ao levantar os olhos, o horário de verão já teria tornado-se imperceptível, já que a noite finalmente caiu.
Um sujeito moreno, com cavanhaque e cabelo ruivos aproximou-se de mim e meu banco, quebrando a cúpula na qual eu escondia-me do mundo. O desgraçado sentou ao meu lado, talvez para irritar-me - com um êxito tremendo- já que o ônibus estaria vazio, se não fôssemos nós dois e mais meia dúzia de pessoas.
De repente, era como se o ônibus estivesse dando voltas no mesmo quarteirão, a viagem tornou-se quatrocentas vezes mais longa.
Rapidamente, antes que o sujeito começasse o que eu menos queria no momento - uma conversa - peguei o livro que lia antes. Incrivelmente, o livro tornou-se também, quatrocentas vezes mais chato. Senti-me um pouco mal, por não saber se o rapaz precisava ou não conversar, e logo chutá-lo assim, mas realmente, sua presença não era necessária. Senti-me uma otária por algo tão pequeno incomodar-me. Senti-me como uma daquelas crianças, que mesmo àquela altura da sexta-feira, achou forças para puxar a trancinha mal-feita da irmã.
Assim como veio, partiu, e eu ainda tinha mais alguns minutos de viagem.
Encosto-me na janela, já sem o inseto, e durmo, esperando que algo menos tedioso, ao mesmo tempo, menos cansativo acontecesse.
Como de costume, acordo quase a tempo de atrasar-me para descer daquele ônibus, no qual passo cerca de 5 horas por dia.
Por incrível que pareça, andar à noite, na rua de casa, algo que não é muito aconselhável quando as crianças que moram na sua rua tenham queimado as luzes externas, que faz confundir o mármore de seu vizinho Pedro com os tijolos de Dona Francisca, faz-me sentir melhor...
As meretrizes, que muitas das vezes, só vemos quando está escuro, são pontuais; 18h30min, no máximo, já ocupam seus lugares. Mas como o horário de verão nos permite ver depois das 18h00min, vejo que algumas delas, se eu as visse no ônibus, ou até mesmo no mercado, em suas roupas 'caseiras', diria que uma possivelmente era secretária, outra até mesmo professora. Ficava claro, cada dia mais, como as pessoas têm o poder de camuflarem-se em meio às outras.
Mas nada daquilo importava. Naquele dia de horário de verão, não podia- nem queria- ver nada.
Pensar dava-me dores de cabeça, e a cada pensamento, vinha-me um golpe de algo, como se fosse uma pá, algumas vezes na nuca, outras em meio à cabeça.
Pra falar a verdade, dava-me preguiça ver a dona de casa pondo o lixo pra fora, o cão passear, o gato andar pelos muros, e coisas normais que à noite, os seres têm a liberdade de fazer, achando (em vão) que ninguém os observa. É inacreditável conseguir pensar que alguém ainda tinha forças para fazer algo maior que chegar em casa, passar fome, mas não cozinhar.
Pode ser egocentrismo, ou egoísmo, mesmo, mas a verdade era que não conseguia ver o mundo andar quando estava cansada.
Dava-me preguiça pensar que o motorista que deixou-me no ponto de ônibus ainda teria algumas viagens a fazer, algumas 'boas-noites' a dar, algumas velhinhas a tolerar, e alguns jovens, que têm ainda forças o suficiente para cometer atrocidades no trânsito. De repente, um pensamento extremamente tolo veio-me à cabeça; onde estaria o inseto que entreteve durante mais de 20 minutos?
Talvez eu nunca saiba ou talvez eu tenha pisado nele, sem querer, ao acordar assustada, só sei que pensar nele, entreteve-me novamente, e quando dei-me por conta, estava parada, de frente à minha porta.
Enfim, minha sexta-feira havia acabado, mas amanhã seria melhor; talvez o moreno não pegue ônibus e não encompride mais a minha viagem.

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